Muitas pessoas possuem curiosidade sobre a essência das constelações familiares e me perguntam frequentemente se elas são espirituais.

Noto que a questão está vinculada ao fato de relacionarem a mesma ao espiritismo ou com a ideia de religião.

Para responder a esse questionamento precisamos adentrar em alguns temas ligados a áreas distintas.

Por exemplo: neurociência, inteligência espiritual, entender alguns princípios sistêmicos, o pensamento complexo, as constelações familiares de Bert Hellinger e as “ordens do amor” enunciadas por ele.

Faço um percurso por estes conceitos e postulados que se interconectam, para demonstrar a minha percepção a respeito.

Também postei em meu canal Youtube um vídeo sobre a mesma temática:

Teoria das inteligências múltiplas

A neurociência, de uma forma simplificada, define inteligência como a “capacidade de resolver situações problemáticas novas”.

Foi Howard Gardner  (Psicólogo da Escola de Educação da Universidade de Harvard) quem, em 1983, introduziu o termo “inteligências  múltiplas“, contestando a visão do QI (quociente de inteligência).

Gardner propunha que não havia um tipo único de inteligência decisiva para resolver situações problemáticas novas, mas um amplo conjunto de inteligências ou capacidades, com nove variedades chaves:

  • Linguística: Permite a comunicação entre os indivíduos, através da linguagem. (p. ex: Jorge Amado).
  • Lógica – Matemática: Capacita as pessoas a usarem e apreciarem relações abstratas. (p. ex: Albert Einstein).
  • Musical: Permite criar e compreender significados, compostos de som. (p. ex: Caetano Veloso / Mozart).
  • Espacial: Possibilita perceber as imagens, transformá-las e criá-las a partir da memória. (p. ex: Pablo Picasso).
  • Cinestésica: Permite usar o corpo, total ou parcialmente, de forma altamente especializada. (p. ex: Isadora Duncan / Pelé).
  • Intrapessoal: Capacidade de voltar-se para dentro, formar um modelo preciso de si mesmo, e poder usá-lo, para agir eficazmente na vida. (p. ex: Sigmund Freud).
  • Interpessoal: Habilidade em compreender as outras pessoas, o que as motiva, como trabalham, como trabalhar cooperativamente com elas. (p. ex: Nelson Mandela. Ghandi).
  • Naturalista: Capacidade de compreender, tipos encontrados na flora e na fauna, conseguindo resolver seus problemas e sua adaptação. (p. ex: Charles Darwin).

Ainda que não citada por Gardner, é aceita a existência de uma Inteligência  Espiritual (p. ex: Leonardo Boff, Dalai Lama).

Inteligência Espiritual

Danah Zohar e Marshall, a definem como: “a inteligência com que abordamos e solucionamos problemas de sentido e de valor“…

Seres humanos são essencialmente criaturas espirituais, porque somos impulsionados pela necessidade de fazer perguntas “fundamentais”

P.ex: “Qual é o significado de minha vida? O que torna a vida digna de ser vivida?”.

Richard Wolman, Professor de Harvard, a entende como a “capacidade humana de fazer as perguntas fundamentais sobre o significado da vida e de experimentar simultaneamente a conexão perfeita entre nós e o mundo em que vivemos”.

Segundo Wolman, cursos de ética e de religiões comparadas têm excesso de alunos em quase todas as Universidades americanas e em particular as Faculdades de Medicina de Harvard , Stanford, Duke, Columbia, John Hopkins – entre outras – ministram cursos de espiritualidade.

Seguindo Zohar e Marshall, a inteligência espiritual unifica, integra e reveste-se do potencial de transformar o material surgido dos outros dois processos: razão e emoção.

Ela fornece um centro de crescimento e transformação, dá ao Eu, um centro ativo, unificado, gerador de sentido“.

Quatro novos parágrafos do livro de Zohar e Marshall (2000:23, 25, 28, 31) esclarecem outros assuntos vitais relacionados com o tema em pauta, pelo que não podemos deixar de apresentá-los:

Inteligência espiritual não tem nenhuma conexão necessária com religião

Para algumas pessoas, aquela inteligência pode encontrar um modo de expressar-se através da religião tradicional. Mas, ser “religioso” não garante alto QS (quociente espiritual).

A religião convencional é um conjunto de regras e crenças (dogmas) impostas de fora.

A inteligência espiritual, entretanto, é uma capacidade interna, inata, do cérebro e da psique humana, extraindo seus recursos mais profundos do âmago do próprio universo.

É a inteligência da alma, com a qual nos curamos, e com a qual nos tornamos um todo íntegro.

Tem sido tópico embaraçoso para acadêmicos, porque a ciência atual não está preparada para estudar coisas que não possa medir objetivamente.

Mas, existe de fato, um grande volume de provas científicas da inteligência espiritual em estudos psicológicos, neurológicos, antropológicos da inteligência humana.

Assim como, em estudos recentes, sobre pensamento humano e processos linguísticos.

Cientistas já realizaram a maior parte da pesquisa básica que revela as fundações neurais da inteligência espiritual no cérebro.

A utilizamos para sermos criativos. Recorremos a ela quando precisamos ser flexíveis, visionários ou criativamente espontâneos.

Nós a usamos para lidar com os problemas existenciais, e nos propiciar meios para resolvê-los.

Ela nos leva ao âmago das coisas, a “unidade” por trás da diferença, ao potencial além de qualquer expressão concreta.

Pode nos colocar em contato com o sentido e o espírito fundamental subjacente a todas as grandes religiões.

 
Danah Zohar – Física e Filosofa fala sobre Inteligência Espiritual

A inteligência espiritual coletiva é baixa na sociedade moderna

Vivemos numa cultura espiritualmente medíocre, caracterizada por materialismo, utilitarismo, egocentrismo míope, com falta de sentido e recusa de assumir compromissos coletivos.

A cultura ocidental, onde quer que exista no globo, está saturada do imediato, do material, da manipulação egoísta de coisas, experiências e pessoas.

Usamos mal nossos relacionamentos e o meio ambiente, da mesma forma como usamos mal nossos sentidos humanos mais profundos

Negligenciamos tristemente o sublime e o sagrado, que existem em nós, nos outros e no mundo.

Espiritualidade e meios acadêmicos

Em resumo, uma constelação de fatores está operando para que a espiritualidade seja tratada como corresponde pelos meios acadêmicos, e incorporada nos respectivos currículos.

Obviamente, não se está falando aqui de pseudoespiritualidade, dogmatismo, obscurantismo, fanatismo ou charlatanice, que de alguma forma podem estar relacionadas no imaginário popular com aquela palavra.

Os principais fatores dessa constelação são os seguintes:

Recomendação da UNESCO (1998) , reclamando que a Educação Superior assuma “dimensões éticas e espirituais mais arraigadas”.

Estudos da Física Quântica (desde 1930), convergindo para uma visão unificada do Universo e uma sintonia cada vez maior entre a Ciência e a sabedoria mística milenar.

O que o misticismo denominava de “Ser Supremo”, e as religiões, de “Deus”, a Ciência agora conhece como “vazio  quântico” ou “Unidade”.

Portanto, a dimensão espiritual é um assunto imprescindível nas aulas universitárias. E também: forma parte indivisível da Transdisciplinaridade.

Rumi, poeta místico sufista do século XIII, pode ter pensado na relação entre QS, valores e religião quando escreveu as seguintes palavras:

Não sou cristão, não sou judeu, não sou zoroastriano,
Não sou nem mesmo muçulmano.
Não pertenço a terra, ou a qualquer mar conhecido ou desconhecido.
A natureza não pode me possuir nem reivindicar, e o céu, tampouco.
Nem também a índia, China, Bulgária,
Meu torrão natal em nenhum lugar está,
Meu signo é ter e não ter signo.
Talvez diga que me vês a boca, as orelhas, o nariz – mas eles não são meus.
Eu sou a vida da vida.
Sou aquele gato, esta pedra, ninguém.
Joguei fora a dualidade, como se faz com um velho pano de enxugar prato.
Vejo e conheço todos os tempos e mundos,
Como único, único, sempre único.
O que, pois, tenho de fazer para que reconheças quem te fala?
Aceita isso e muda tudo!
Esta é tua própria voz ecoando das muralhas de Deus.

Constelações familiares e espiritualidade

As constelações familiares, nesse contexto, trabalham com a dimensão espiritual, mas não com religião.Não está ela relacionada a nenhuma religião ou suas práticas e ritos.O que acontece é que algumas pessoas associam a suas práticas religiosas as constelações familiares.

Porém, isso não está relacionado à essência das constelações, mas a crença de quem assim a interpreta.No meu curso de formação em constelações familiares o ensino é baseado nos novos paradigmas da ciência, das neurociências, da visão sistêmica e o pensamento complexo.

Não há em nossas aulas qualquer direcionamento quanto a práticas religiosas ou suas crenças.


Religião – Bert Hellinger

As ordens do amor

São princípios sistêmicos, organizados por Bert Hellinger.

Eles são produto da observação das relações humanas, Hellinger concluiu que existem “Ordens” sem as quais o Amor não dá certo.Uma série de “leis” observáveis da ecologia humana que também podem ser observadas nos ecossistemas.

Quando não, o sofrimento e suas diferentes manifestações encontram o campo onde pousar. Portanto, o sofrimento só está para indicar que uma ordem deve ser resgatada nesse sistema familiar, um convite para dar um passo evolutivo .

Podemos dizer que as constelações familiares promovem o reestabelecimento das “Ordens do Amor” nos sistemas humanos.

Pertencimento

A ordem do pertencimento é um exemplo, pois quando há um excluído na família se observa que essa família sofre.

Instala-se assim um “padrão” de exclusão que passa a se repetir de uma geração para outra.

Em algum momento alguém desse sistema passa a representar o excluído de uma geração passada e vai trazer essa exclusão, reiterando o padrão.

Isso pode ser observado ao abrirmos as constelações. O “campo” nos mostra esse padrão sendo repetido.

Essas leis ou princípios não dependem da opinião ou aceitação

É como a lei da gravidade, você pode não concordar com a existência dela, porém, nem por isso deixará de sofrer sua influência.

Da mesma forma acontece com as ordens do amor e os princípios que as norteiam, você pode não concordar, mas isso não as impedem de atuar.

Isso ocorre no sistema familiar e na biosfera.

Por exemplo, se estamos desmatando as árvores da Amazônia, criando um vazio na biosfera, a natureza vai compensar esse vazio com algo.

Vírus de várias espécies ou transtornos naturais são criados para preencher esses vazios causados pelo desmatamento.

O “sofrimento” ambiental se produz como consequência de ter alterado uma ordem ecológica.

Ordem da hierarquia

Se desrespeitamos nossos pais ou tentamos fazer o papel deles, carregando o fardo deles em nossas costas, por exemplo, vamos padecer e eles também.

A vida cobra um tributo, quando qualquer uma das ordens não são respeitadas. O desequilíbrio se instaura e os emaranhamentos aparecem.

Quando observamos pais se colocando no mesmo nível hierárquico que seus filhos, querendo ser “amigos”, sem ocupar o lugar de pais, haverá sofrimento nessa família, que pode perdurar por gerações.

O mesmo ocorre quando os filhos ocupam o lugar dos seus pais.

A ordem é invertida e existe um desequilíbrio.

Reconfigurando a ordem da hierarquia, durante uma constelação familiar.

Os campos de atuação das Constelações Familiares

A visão das ordens do amor pode ser aplicada para identificação de problemas, assim como para sua resolução, em qualquer lugar em que existirem sistemas humanos e sua rede de relacionamentos.

Pode ser na família, instituições, empresas ou sociedade.

Os campos de atuação vão se expandindo e ramificando cada vez com mais força, nas diferentes áreas do saber.

Temos assim a “Pedagogia Sistêmica”, as “Constelações Organizacionais ou empresariais”, a “Medicina e o Direito Sistêmico”, dentre outras.

“Quando o amor circula em ordem no sistema familiar, emerge a dimensão espiritual”.
Mario Koziner

Visão sistêmica, pensamento complexo e Inteligência Espiritual

A visão sistêmica responde ao “pensamento complexo”.

Este tipo de pensamento é um conjunto, um todo mais ou menos coerente, cujos componentes funcionam conectados entre si.

Há numerosas relações de interdependência, em vários níveis simultaneamente.

De apreensão muitas vezes difícil pelo intelecto.

Numa constelação familiar podemos achar a origem de um suicídio em uma série de excluídos da família três gerações anteriores.

Às vezes, o que impede a uma pessoa progredir economicamente, provém de uma briga entre irmãos, onde foi alterada a ordem entre o dar e tomar na família, algumas gerações atrás.

Só podemos compreender isto desde um pensamento complexo e transgeracional.

Com esta visão, podemos começar a compreender melhor, muitos dos “desequilíbrios” da sociedade moderna.

Desta perspectiva, que supera uma visão linear dos acontecimentos, também se ressignifica o conceito de “tempo”.

Porém, para entendermos isso precisamos ter uma visão sistêmica, um pensamento complexo e um sentir mais afinado.

Com o Q.I só não conseguimos compreender a multicausalidade de certos fenômenos.

É necessário ativar a inteligência espiritual , aquela que “permite experimentar simultaneamente a conexão perfeita entre nós e o mundo em que vivemos”.

O pensamento linear não conecta uma coisa com a outra.

Para compreender tudo isso não podemos nos basear no pensamento cartesiano, fragmentado.

Conclui-se, então, a partir desses novos conhecimentos, que as constelações familiares, sim, promovem a vivência espiritual nos sistemas humanos.

A Teoria dos Campos Mórficos e as Constelações Familiares

Quando estamos diante desse infinito campo de possibilidades que uma constelação oferece, nos abrimos à ressignificação do passado-presente-futuro, contínuo.

O campo que estamos estudando é um campo de “informações atemporais”, que nos permite compreender simultaneamente uma infinidade de situações familiares em breves períodos de tempo.

Podem coexistir vivos e falecidos no mesmo campo.

Podemos assim, chegar à raiz de um sofrimento que pode ter sido instalado em gerações anteriores, e solucioná-lo.

“As Constelações Familiares promovem a vivência da espiritualidade no campo familiar”.
Mario Koziner 

Reconcilia-se aos que estavam divididos,
Colocam-se na ordem hierárquica certa aos que estavam invertidos,
Inclui-se aos excluídos,
Aceitando o que foi negado ou rejeitado,
Compensa-se o que estava desequilibrado entre o dar e receber,
A compreensão surge entre os integrantes,
A compaixão promove o perdão,
Novas “conexões amorosas” são feitas entre os integrantes da família,
Enfrenta-se e transcende o sofrimento,
Interrompe-se a compulsão a fazer dano desnecessário,
Percebem-se conexões entre situações diversas, que anteriormente não tinham “lógica” nenhuma,
Se ressignifica o “sentido” individual e do grupo familiar,
Resgata-se o “para que” desse sofrimento, o sentido maior,
A Paz, ganha o campo para pousar,
Tudo isso é a realização da espiritualidade.
Nos indivíduos, nas famílias, nos sistemas humanos…..

Mario Koziner

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