A propósito do recente anúncio, por parte do Ministério da Saúde, de incluir as Constelações Familiares como parte das Práticas Integrativas e Complementares (PICS) para pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), quero trazer uma reflexão do lugar das Constelações Familiares e do papel dos facilitadores desta disciplina.

Prof. Mario Koziner

Além da psicoterapia?

Como prestadores de ajuda, somos obrigados a colaborar no desenvolvimento de algo bom, que faça progredir aqueles que se encontram em necessidade. A ajuda¹ é uma faculdade que se baseia em treinamento e experiência.

Estamos acostumados a ver a faculdade terapêutica encaixada em instituições de psicoterapia e aconselhamento e em suas respectivas administrações, que velam pelo desenvolvimento dessa faculdade e para impedir abusos em seu exercício.

O trabalho das Constelações Familiares se desenvolveu fora da psicoterapia estabelecida, como originariamente muitos outros métodos de ajuda, e não reivindica seu lugar como um método terapêutico que venha a substituir as abordagens psicoterapêuticas reconhecidas.

O que muitos teóricos e praticantes sentem como afronta ao domínio da terapia é a observação de Bert Hellinger, partilhada por muitos consteladores – não por todos – que “o trabalho com constelações vai muito além da psicoterapia”.

Os críticos objetam que, com isso, se abrem amplamente as portas para tolices esotéricas. Afirmam que, como o trabalho com as constelações visa realmente a obter efeitos terapêuticos, ele deve sujeitar-se às leis que regulam a terapia e às normas de uma terapia cientificamente controlada, ou deve deixar de existir.

Neste particular, importantes discussões também vêm acontecendo entre os consteladores, e o campo está aberto para o desenvolvimento e a pesquisa.

Ordens da Ajuda

O livro Ordens da Ajuda, de Bert Hellinger², que resume sua longa experiência e suas convicções sobre o tema da ajuda, contém matéria explosiva que exerce provocação, tanto sobre a esfera externa quanto sobre o cenário dos consteladores:

  • Somente é capaz de ajudar quem assumiu plenamente os próprios pais e a vida.
  • Só é capaz de ajudar quem renuncia a dar ao cliente mais do que ele precisa.
  • Só pode ajudar quem tem a capacidade de dar o que o cliente necessita.

Muitos ajudantes³ correm o risco de que seu impulso para ajudar resulte de sua própria carência, de uma simpatia que se restringe aos fracos e às vítimas e da pretensão de estarem à altura de todos os destinos de seus clientes.

  • Toda ajuda deve ajustar-se às circunstâncias na vida do cliente e só pode intervir em caráter de apoio e quando o permitam estas circunstâncias.
  • Somente respeita o processo de ajuda do cliente quem não se coloca acima dessas circunstâncias, do destino do cliente, de sua vocação pessoal, de suas aptidões e de sua capacidade de decisão.

 

Um estímulo para o crescimento

Na psicoterapia tradicional, infiltraram-se padrões de pensamento segundo os quais os terapeutas poderiam ser mecânicos, juízes, cônjuges ou pais.

Principalmente esta última tendência foi grandemente reforçada através do modelo teórico e do prático de transferência e contratransferência, com a “elaboração” de conflitos e a ideia de acompanhamento posterior, com o correspondente prolongamento da terapia.

Embora a Constelação Familiar não conteste os conceitos de transferência e contratransferência, o constelador não trabalha com estes processos e se desprende deles da melhor forma possível.

O terapeuta ou o aconselhador conduz o cliente diretamente para seus pais, quando isso é necessário. Ele só os representa transitoriamente e por pouco tempo, apoiando, por exemplo, a recuperação do movimento amoroso, sem colocar-se, entretanto, no lugar dos pais.

Ele renuncia a acompanhar o cliente durante um período de sua vida e a oferecer-lhe um espaço de substituição ou de proteção para seu crescimento na segurança do espaço terapêutico. Ele só lhe dá um estímulo para o crescimento, geralmente sem acompanhar a sua realização na vida concreta.

Entendida desta maneira, a Constelação Familiar não é uma terapia. Ela se assemelha realmente a uma predição, um oráculo ou um vaticínio, na medida em que traz à luz laços de destino e seus efeitos. Ela ajuda a “ver”, sem influenciar o cliente naquilo que fará com o que foi “visto” e sem que o ajudante desempenhe um papel nisso.

Para além de uma predição, a constelação também ajuda as pessoas a sentirem o próprio amor, frequentemente oculto no destino cego. Ela possibilita abrir os olhos para o amor, estabelecendo relações cara a cara. E aqui, o terapeuta se coloca mais a serviço do diálogo do cliente com seu sistema de relações, do que a si mesmo como interlocutor do diálogo.

A Constelação Familiar mostra os caminhos para uma compensação positiva, em vez de uma compensação funesta. Ela fornece indicações sobre o que ordena as relações, tanto para o mal quanto para o bem. Ela faz confrontar, às vezes duramente, com a realidade, mas não diz o que a pessoa deve fazer ou deixar, ou como será seu futuro.

Nesse particular, ela deixa a pessoa que busca auxílio sozinha, ou no círculo de sua família e de outras relações existenciais. Isso muitas vezes parece ser chocante para as pessoas no exterior, se bem que muitos clientes experimentem justamente essa atitude como confiável, aliviadora e fortalecedora, pois com ela são tomados a sério e se sentem livres.

Um olhar para os excluídos

Outra questão que incomoda observadores externos é que os consteladores às vezes olham menos para o que o próprio cliente precisa do que para as necessidades de outros membros do sistema, principalmente dos excluídos.

A principal atenção se dirige para a incorporação daqueles que estão separados dentro de um sistema de relações, e não apenas para o cliente e sua autonomia.

O autêntico ajudante, como propõe Bert Hellinger, resiste à diferenciação entre o bem e o mal e, com isso, à consciência pessoal do cliente. Ele antecipa a necessária ação do cliente, na medida em que dá em sua alma um lugar aos excluídos ou incriminados.

Um olhar sistêmico

Ao abrirem um espaço para além dos efeitos da consciência do grupo, os consteladores têm em vista o que sugere o olhar sistêmico – um contexto que aponta para além dos grupos individuais – em uma determinada situação de vida, como conveniente para o crescimento posterior. Tanto a consciência pessoal quanto a coletiva são acolhidas numa espécie de consciência universal, direcionada para o todo maior.

Aqui a configuração de sistemas de relações também se distancia de uma psicoterapia e de um aconselhamento puramente orientados para soluções. Abre-se um nível mais espiritual, na medida em que se encara a ligação com algo maior, que está fora de nossa disponibilidade e possibilidade.

Orienta-se no sentido do crescimento e do desenvolvimento na direção de um espaço aberto. Por isso, se pode afirmar que a Constelação Familiar é mais que uma psicoterapia.

A ajuda que ocorre no interior desse “mais”, dificilmente se enquadra nas instituições de ajuda tradicionais e em seus regulamentos.

Um desafio para o facilitador em Constelações Familiares

Para um facilitador em Constelações Familiares Fenomenológicas que queira realmente se ajustar aos princípios sistêmicos sistematizados por Bert Hellinger, quero trazer as seguintes perguntas/reflexões:

Por a Constelação familiar haver sido acolhida dentro do marco do Ministério da Saúde e integrada ao Sistema Único de Saúde:

  • Devemos guiar-nos pelo pensamento dualista saúde/doença?
  • Trabalharemos para que a doença, sintoma ou sofrimento “desapareça”, como se a constelação pudesse substituir um medicamento alopático?
  • Seria coerente com os princípios que norteiam nossa prática, trabalhar com um paradigma dualista, no qual o sintoma deve deixar de dar a mensagem que tem para escutar e aprender?

Particularmente, me parece um grande avanço a entrada das constelações ao SUS, mas não para comprimir a nossa disciplina ao paradigma cartesiano do método científico tradicional.

O desafio agora, para o facilitador em abordagem sistêmica, é construir um corpo de conhecimento que ofereça uma contribuição aos “novos paradigmas emergentes na ciência e na cultura”, que questione as bases epistemológicas da própria prática da medicina, da psicologia e disciplinas da saúde.

Construir espaços de reflexão que deem lugar a questionamentos, tais como: O que é saúde? O que é doença? Para que existe o sofrimento humano? Qual é seu sentido?

Necessitamos criar facilitadores solidamente formados, que não sejam apenas “praticantes de uma técnica” reducionista, subespecializada, fragmentada, produto do colapsado paradigma newtoniano/cartesiano.

Necessitamos criar facilitadores com um olhar sistêmico, transdisciplinar, promotores de uma expansão da consciência humana, onde possamos demonstrar que, quando o amor segue as ordens da ecologia humana, pode instalar-se uma cultura de paz no indivíduo, nas famílias e na sociedade.

Próxima turma de formação em constelações familiares do Instituto Koziner
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¹ Entendida em um sentido profissional.
² HELLINGER, Bert. Ordens da Ajuda. Editora Atman.
³ Refere-se a profissionais da ajuda.

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