Para aqueles que não conhecem as constelações familiares, é comum associar a palavra “constelações” com astrologia ou astronomia.

No entanto, não é disso que se trata.

O objetivo desse artigo é dissolver essa confusão e esclarecer o que vem a ser as “constelações familiares”, de acordo com uma visão sistêmica.

Visão sistêmica das constelações familiares

Em quaisquer lugares em que existirem relações interpessoais com uma finalidade em comum, seja nas famílias, nas organizações empresariais, escolares, etc., estaremos diante de um sistema.

Podemos exemplificar com uma metáfora: imagine numa família cada componente como sendo um fio interligado ao outro, formando um tecido.

Ocorre que muitas vezes esses fios estão colapsados ou emaranhados.

As constelações familiares observam o local em que esses fios estão emaranhados e ajuda a desfazer os emaranhamentos.

Sendo a família a nossa base para as relações sociais, um problema relacionado a ela será levado para todos os tipos de relações que temos com o mundo.

A visão sistêmica não percebe apenas o indivíduo que traz alguma questão a ser resolvida, mas todo o grupo, todo o sistema do qual faz parte.

Podemos dizer que não percebemos uma só estrela, mas sim uma constelação, por isso o nome “constelações”.

Esse nome representa tecnicamente a uma visão sistêmica da família.

Ressignificando o conceito de “tempo”.

Podemos dizer que os acontecimentos se sucedem em um marco atemporal.

O conceito trabalhado é transgeracional, não há uma razão linear entre presente, passado ou futuro.

É por esse motivo que o sistema é percebido como um “presente contínuo”, em que todas as gerações são afetadas pelos movimentos das constelações.

Padrões inconscientes

Muitas vezes trazemos padrões familiares de maneira inconsciente, que são carregados de geração a geração.

Um exemplo disso é:

Quando abrimos uma constelação para uma pessoa que tem diagnosticada uma depressão, clinicamente falando, pode ser que apareça ali no seu sistema um padrão transgeracional.

Ou seja, estamos trazendo essa informação em nosso “campo morfogenético” de várias gerações atrás, de nossos antepassados.

Recentemente em uma constelação, observei que o consultante estava emaranhado com a linha materna da sua família, onde sua mãe, avó, bisavó e ancestrais, por várias gerações traziam uma ruptura nos relacionamentos com seus descendentes por causa de uma situação traumática acontecida dentro da família. Isto fez com que a partir de uma determinada geração os filhos/as não conseguiram “tomar a força materna” e isto deriva no que denominamos na clínica, uma depressão.

No momento em que um campo morfogenético é aberto na constelação, acessamos informações transgeracionais, que racionalmente não poderíamos acessar.

Bert Hellinger

Essa visão está baseada na síntese elaborada por Bert Hellinger, filósofo, pedagogo e terapeuta alemão, que foi meu professor, nesta abordagem sistêmico-fenomenológica.

Quando Hellinger começou com esse trabalho falou das “ordens do amor” e referenciou o trabalho sistêmico a existência de certas leis.

Quando essas leis ou ordens são seguidas de uma forma ecológica os relacionamentos humanos dão certo.Se desrespeitadas há conflitos, doenças e sofrimento.

Para um aprofundamento quanto a esse tema das ordens do amor, acesse o mini curso gratuito que ofereço.

Um exemplo das ordens do amor é a lei do pertencimento. Segundo a qual, nenhum de nós vive isolado, todos pertencemos a um sistema, como filhos, pais, netos etc. Gostando ou não de nossos pais ou antepassados, nós fazemos parte de um sistema.

Ser filho é uma ordem natural. Pertencemos a um sistema familiar em que hierarquicamente estamos abaixo de nossos pais, que estão acima. Eles, por sua vez, estão abaixo de nossos avôs e assim por diante. Por uma ordem de chegada mesmo e hierarquia por chegar antes ou depois.

Se por algum motivo uma pessoa é excluída do sistema, por questões lógicas ou não, essa pessoa vai sofrer, porém, o sistema também. A exclusão de um membro do sistema desestabiliza todos, até que se reestabeleça novamente a ordem e os excluídos sejam incluídos.

Isso acontece, pois, alguém representa o excluído do passado e traz esse padrão de exclusão no presente, no seio da família atual.

Campos morfogenéticos

Podemos obter essas informações através do campo mórfico ou morfogenético de uma família, recriado através de uma constelação.

O campo morfogenético é uma espécie de memória coletiva inconsciente desse sistema.

A metodologia fenomenológica das constelações permite acessá-lo.

Ecologia na biosfera

Para que fique um pouco mais claro, vamos a um exemplo:

Continua havendo um grande desmatamento na Amazônia, com isso estamos tirando muitas árvores que estão no “pulmão” do planeta.

Existem pesquisas científicas que demonstram que várias novas espécies de vírus existentes atualmente estão relacionados a esses buracos na biosfera.

Eles foram causados pelo desmatamento e algo tomou o lugar, no caso, foram esses novos vírus que vieram ocupar o espaço dessas árvores mortas.

Alguns dos transtornos naturais revelam uma exclusão havida no sistema, que para compensar essa falta cria algo que preencha esse vazio.

Enquanto não é resolvido o padrão de exclusão do sistema ele é levado por gerações, até que ocorra uma reparação, voltando a incluir o que foi tirado.

Atualmente vivemos o momento de extrair mais recursos naturais do que podemos compensar e isso gera um grande desequilíbrio.

Aqui entra em jogo outra ordem ou lei: “O equilíbrio entre dar e tomar”. Essa visão ecológica é complexa, os sistemas seguem essas leis. A família, como um organismo sistêmico, segue a mesma lógica.

Resumindo, quando falamos de sistemas estamos olhando para o todo e as relações interdependentes que há nesse todo.

Abordagem sistêmica e suas aplicações

A “Visão sistêmica” vai além de questões familiares, podemos aplicá-la para mostrar caminhos de solução a situações empresariais e institucionais.

Se ampliarmos um pouco mais, questões sociais podem ser identificadas com esta disciplina por ela harmonizada.

Olhar sistemicamente para os problemas é entender de uma forma global uma questão que antes era vista isoladamente, sem relação com a infinidade de variáveis com que pode estar vinculada.

Empresas familiares e as constelações

Problemas empresariais podem ter sua origem detectada através das constelações.

Sobretudo quando estamos falando de empresas familiares, há questões ligadas a empresas e outras ao próprio sistema familiar dos proprietários.

As constelações podem detectar e ajudar a devolver o equilíbrio a esses sistemas em desordem.

Novo tempo, novo paradigma

Atualmente as constelações encontram acolhida nas mais diversas áreas como o Direito, Pedagogia e a Medicina.

Através de uma visão transdisciplinar passamos a ter um olhar transgeracional para as questões que nos atravessam.

Em nosso curso de formação de Constelações Familiares e Soluções Sistêmicas, os alunos aprender a ter uma visão sistêmica da sua própria vida, dos relacionamentos humanos e do mundo.

Esse é um momento histórico em que estamos em transição de um paradigma newtoniano, positivista, cartesiano na direção de um mais amplo e interdependente paradigma sistêmico.

Mario Koziner